Sentia-se desorientada. Com certa dificuldade para focar as letras, pensava que havia entre as teclas do teclado - teclas de plástico e sem a marca de um símbolo, letra, número - e as letras puras -  tinta sem plástico, a idéia das letrinhas em um teclado em si em uma outra dimensao -  um espaço metafísico capaz de me absorver e de absorver a todos nós. Preocupava-se, ou melhor dizendo decidira, não de vontade própria mas pressionada por uma força exterior, preocupar-se com assuntos mais triviais. Passa a mão na franja. Na franja não: nos olhos. Seus olhos vermelhos e pesados. Já não se lembra de nada que estava escrevendo antes ou de uma dimensão antes criada por ondas e cores e formas e brilhos. Fica parada olhando fixamente para três focos diferentes em uma mesma cena - é importante ressaltar que tal ação com o olho humano é extremamente difícil; ficou assim por uns cinquenta segundos. Foi como um transe: ainda teria muitos. Foi quando decidiu ligar a música. E decidiu não só ligar a música como colocar aquela que, no momento, mais a tocava. Despia-se. Teve uma vontade imensa de desabar em cima do computador. Ou talvez fosse mais interessante que chorasse calmamente olhando para algum objeto focalizado que preenchesse sua mente. Isso, é isso que faria. Olharia fixamente para um ponto até que uma lágrima escorresse pelo canto de seu olho esquerdo. Gostava de cenas melancólicas e ridículas. Confesso que tenho um certo gosto pelo apelativo também. Adoro jornais sensacionalistas, por exemplo. Decidiu colocar algo mais alegre e que não a afundasse num poço de depressão e  auto-piedade. Algo mais leve não, algo mais feliz. Adorova fingir que era feliz. E fingia bem, a não ser pelas gargalhadas excessivamente treinadas. Estava recobrando a sobriedade. Não, ainda não. Ainda estava viajando, mas agora entrara no que usuários costumam chamar de “bad vibes”. Penso que são ridículos. Ela também, com seus cabelos castanhos atrás da orelha para marcar bem os brincos de pérola que adora usar para que a achem a mais encantadora de todas. Coitada. A ninguém encanta, a ninguém enfeitiça. Muito pelo contrário: causa-lhes ódio. Talvez nem tanto. Talvez desperte o ódio apenas em si mesma. Sim: é isso que irá fazer: despertar o ódio em si mesma. Quero que sofra. O efeito havia passado. Estava se sentindo ridicula frente a tudo o que tinha feito.. Sentiria vergonha de si mesma. Era mesmo ridícula. Todos acham, sempre acharam. Não. Melhor não. Melhor terem pena dela do que a acharem ridícula. E é isso que acontecia. Agora sim. Agora sim posso matá-la. Mas será que a matar é a melhor solução? Sentia-se desorientada. Cansada. Sentia-se Deus: narrava sua vida do exterior do corpo, do interior da alma. Materializava-se. Não, materializava-se não: transcendia. Era jabuticaba: por fora, pretinha de pele e de cabelos. Por dentro, massa heterogênia de um branco transparente, espírito vital. Desorientada. Morta. 

espelho

Sentia-se bem. Sabia que agora sua vida mudaria. Talvez fosse tarde demais, talvez deveria ter curado seu trauma anteriormente; agora a menina virou diabo e era possível que não mais se pudesse reverter a situação. Sua vida está acabada. Passa as mãos no cabelo a fim de achar qualquer coisa que não um galho; vem um trevo. Não lava a cabeça há 4 dias aproximadamente. Os cabelos também: estavam sujos. No comprimento da perna  entre os sapatos de verniz e a saia de borracha, era possível de se observar pequenos cortes e arranhões. Entre as coxas os machucados aumentavam e as feridas se tornavam cada vez mais espessas.

                Sua nova vida era a única que lhe era cabível. Merecia-a. Possuí-a. Pertencia a ela: à vida. Passara 14 anos da mesma sendo abusada pelo pai; no que mais podia se tronar? O que mais lhe estaria reservado se não o sexo forçado? O gozo como desprezo? A infância roubada. Mas sua vida havia de mudar. Havia fugido de casa: os sertões estavam longe. Agora seu cotidiano era outro. Não há mais mato: há asfalto. Não faz mais calor: faz frio. Chupa agora por volta de 20 caras em uma só noite. Ganha um dinheiro bom. Às vezes é permitido se comer em um restaurante mais caro e, quando a noite anterior é boa, até um refrigerante pode. Gosta de guaraná. Guaraná Kuat, dos gringo.

                Era um dia importante. Havia tomado café-da-manhã pela primeira vez em meses. Uma senhora havia a encontrado na rua de dia e a levado pra tomar café-da-manhã com ela em uma padaria granfina. “Tão novinha…”. Comeu carolinas de doce-de-leite, croissants de chocolate, pão com queijo e presunto, um copo de suco e um copo de leite com chocolate. Chocolates são sua paixão. Na saída, ganhou de presente da senhora um chiclete que nunca havia visto antes; era um chiclete muito grande que vinha enrolado feito barbante. Barbante não: fita crepe. Era, então, um chiclete muito grande que vinha como que fita crepe.

                Desenrolava o chiclete na rua. Era difícil. Enquanto tentava se concentrar, passou por ela um rapaz muito apressado. Reconheceu-o. Joaquim Pereira tinha 16 anos e fora preso 4 vezes por assalto à mão armada. Mais uma e ele passava a vida toda dentro da cadeia. Joaquim era bom: às vezes a levava para comer com o dinheiro dos assaltos. Deu, então, timidamente, um adeus à senhora. A mesma acenou e fez um sinal com a cabeça para que a menina fosse atrás do rapaz.

                Saiu correndo com seus pézinho desajeitados naquele salto alto atrás de seu amigo. Ele havia dobrado a esquina e ela havia ficado para trás. Assim desejou mais tarde. Foi no exato momento em que virou a esquina que ouviu o barulho do tiro. Ouviu e viu. Joaquim, para se defender, havia atirado em um policial. Atirado não: tentado atirar. Acontece que o tiro saiu errado e acabou acertando uma menina um pouco mais nova que ela. Uns três anos tavez. Uma pontada no coração. Foi correndo até Joaquim. Queria mesmo era pegá-lo pelo mão e sair correndo até que seus pézinhos gastos começassem a esfolar e até que seu pulmão não conseguisse mais filtrar o ar e até que seus olhinhos se virassem e ela tivesse que ser levada até sua casa, para seu pai. Perturbou-se com esse pensamento. Tinha dentro dela como que todo o gelo do mundo. Por que não poderia viver como todas as outras crianças? Por que não poderia morrer como a menina a sua frente? Naquele exato momento. Assim: morrer. E então lembrou-se da senhora e  de todo o doce-de-leite que havia comido na manhã. Sentia, agora, que era única.

                Sem pensar, caminhou arrastando os pés até a menina estirada nos braços da mãe. A mão estava suja, mas a mãe da garotinha morta não se importou. Reparação, família e destino rodavam em sua mente como que as estrelinhas rodam em volta dos personagens de desenhos animados quando eles se machucam. Estava com a cabeça encostada no obro esquerdo da mãe e passava a mão na cabeça de sua própria alma. E, nesse arranjo angelical, desejou permanecer por toda a sua vida.

o menino geografia e seu sono eterno

Não era redondo como um globo terrestre
Mas também não era humano como um menino do agreste.
De um lado era Europa, do outro lado era Brasil
Ficava acordado nas rochas de sua coluna
Enquanto o nariz de terra descansava em sua gruta.
O pequeno não comia, não dormia, não viviva
Apenas girava em torno de seu epicentro: dia e noite, noite e dia.
Certo equinócio, cansou de tudo
Planejou um ataque terrorista no centro de seu mundo.

(baseado no o triste fim do pequeno menino ostra e outras histórias - Tim Burton)

“De amor fui feito, por amor lutei.”

Não sabia ler. Não sabia escrever. Tinha  quarenta e oito anos, sardas espalhadas pelo corpo todo, cabelos que não se escolhiam entre o ruivo e o castanho e uma alma de quem está disposto a dar. Dar sem receber nada em troca. Uma alma pura, livre das amarras da civilização, da compressão devido à pressa do dia-a-dia na cidade grande. Era uma alma que gostava de repousar embaixo de uma árvore qualquer dos cerrados de Goiás. Talvez um marolo. Árvore de fibra rija e dura, porém com fruto saboroso. Assim era Roberto: por fora, tinhas as mãos secas e desgastadas devido ao trabalho pesado e ao desgaste do sol; por dentro, tinha os mais belos sonhos.

                Não tinha filhos. Vez ou outra, levava pra casa uma rapariga que havia encontrado no bar. Adorava cachaça. Nos últimos meses, bebeu até demais. Tinha família. Uma família bonita. Seu pai morreu quando ele tinha apenas sete anos; a mãe morreu aos nove. Era o mais velho de quatro irmãos. Um deles ainda mora na fazenda, mas os outros dois decidiram tentar a vida na cidade grande. O que mora na fazendo engravidou a serviçal. Tem agora três filhas, das quais cuida sozinho pois a mãe das crianças o deixou pelo dono de dois quartos da fazenda. Maldita. Roberto só possuia um oitavo. Aliás, era tudo o que Roberto possuia.  

                Trabalhava queimando cana para o tal cara. Todos os dias, acordava às oito horas da manhã para tirar leite e colher os ovos. Levava-os para a sede da fazenda. Guardava para si uma xícara de leite quente e puro e dois ovos, os quais comia crus batidos ao leite. Após o desjejum, era comum que fosse para a ‘’cidade’’, que possuia apenas um posto de gasolina, um mercado, dois bares e nenhuma rua asfaltada, tentar trabalho. Procurava todo dia um novo trabalho, mas nada havia. Metade da população era analfabeta. O dinheiro da cidade vinha do latifundiário Mauro, que era dono do posto de gasolina e de um dos bares. Explorador. Pagava cento e oitenta reais por mês para os trabalhadores da usina de cana. Roberto era um deles. Ganhava cento e vinte.

                Não havia nada que odiasse, a não ser a miséria. Nunca havia arranjado briga na vida. Sabia o que era apanhar, mas não conhecia o prazer de bater. Ia para o trabalho lá pelas seis horas da tarde e voltava às cinco horas da madrugada. Todos os dias. E, apesar de tudo, não tinha nenhum sentimento de revolta dentro dele. Estava satisfeito. Sabia que no fundo, mas bem no fundo mesmo, era livre. Gostava muito de uma irmã que o visitava às vezes. Tal fato acontecia muito pouco, pois tal irmã agora pertence à cidade grande. Faz parte dela. Foi engolida. Ele não: ainda era livre. Mesmo assim, amava-a.

                Certa tarde Roberto colocou a camisa, vestiu as calças, a bota, o chapéu, pegou sua trouxa e caminhou para o trabalho. Cortou a cana, queimou-a. Por fora o suor, por dentro o esforço e no interior a dor. Às onze horas, fez um intervalo. Comeu pão, reviro e água. Gostava de reviro: era simples. Água, trigo, sal. Deixou a usina. No caminho de volta para casa, avistou, a mais ou menos uns vinte metros, dois trabalhadores com um caminhão da fábrica. Compreendeu. Abaixou a cabeça e seguiu andando.

No dia seguinte, não apareceu na sede da fazenda com o leite e os ovos. Estava morto, no lado direito da estrada de terra que separa sua casa da usina. Todos foram contatados.

Todos choraram. Todos se culparam.

 Roberto não: no céu não há miséria.

são onze horas da noite e eu paguei dez reais a mais praquela exploradora que ainda por filha da putisse me disse que eu poderia manter o dinheiro se a chupasse desci do carro puta no posto e fui direto pro banheiro, olheiras artificiais criadas pelo lápis borrado e rímel escorrido me encaravam no espelho e com o papel higiênico do banheiro eu limpo o preto, e com o dedo sujo eu passo o blush rosa na bochecha a fim de ficar mais feminina pra você, e pra quando eu sorrisse minhas bochechas ficassem ainda mais coradas e você me desejasse ainda mais e com a mão pintada de rosa arrumo a alça da bolsa e a pressiono contra o corpo e vou por debaixo do sereno e contra o vento e ao longe avisto um homem e ainda mais longe sua casa e penso em todas as possibilidades de morte e se ele me atacasse e ferisse talvez fosse bom eu chegaria chorando desesperad e você me abraçaria e diria que calma querida tá tudo bem agora e eu realmente desejei ser roubada estuprada machucada só pra te sentir embaixo do sereno e contra o vento seus braços ao meu redor mas já passou e o homem não está mais lá e sua casa está mais próxima e eu me sentia mais perto de você quanto mais perto do perigo e mais longe da sua casa mas o caminho era o inverso  e eu já estou no elevador e cada segundo é como mais um dia em uma banheira com água gelada a porta tá aberta e eu entro e há seu pão na bancada seu café você sempre faz isso meu pão meu leite meu patê minha ricota e enquanto eu olhava o pão pensava se você havia ouvido eu entrar e se seu coração tinha se acelerado e os seus póros dilatado e se estaria ou não ansioso e louco pra me ver como eu estou pra ver e se viria ou não me receber e ninguém veio ninguém vem e no caminho do quarto penso em mil maneiras de surpreendê-lo e fazê-lo sorrir e quando dobro a quina da parede você me vê e sorri pra mim e eu penso que consegui e você diz que precisamos conversar,

 

 

 

 

 

Tudo o que eu sabia naquele momento era que as folhas verdes da árvore se entrelaçavam com as estrelas no céu da mesma maneira que eu desejava, com toda a força que me cabia, que nossas mãos estivessem dispostas. Sentados na sarjeta nós jogávamos gravetos, eu e ele. Eu de cabeça baixa, sem certeza alguma do que estava acontecendo e imaginando, inocente e romântico, todos os seguintes passos que estavam por vir; o silêncio depois de uma risada tímida, o olhar seguido de constrangimento e, por fim, a aproximação. Criava em minha cabeça carências e cuidados, como por exemplo o que fazer caso a barba dele roçasse na minha  e, por um instante que fosse, eu me distraísse da boca que tanto me custara ter.          

Raul tirou do bolso um maço e colocou o cigarro entre os dentes de maneira que o filtro ficasse levemente apertado. Em seguida, tirou do bolso seu isqueiro vermelho que, segundo me contara mais tarde, havia escolhido justamente por ser uma cor que apenas “homens de verdade” e prostitutas escolhem. Já com o cigarro pela metade me ofereceu um trago e riu, fazendo com que seus vincos e rugas se ressaltassem ainda mais no rosto branco e marcado. Naquele momento eu soube. Soube que não mais poderia viver sem tua boca. Me aproximei, pois sabia. Ele continuou imóvel. Por um segundo, tomado pelo medo e pela angústia, pensei em desistir. Foi quando senti em meu rosto sua mão áspera. E choveu.

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(Source: coffeecaine, via you-are-beyond)

(via zoewashburne)